sexta-feira, 30 de julho de 2021

Sobre o livro A B Ácido - estórias, de Rauer Ribeiro Rodrigues, por Adriana Aneli

 



A EQUAÇÃO DE IONIZAÇÃO DOS ÁCIDOS


De todos os gêneros, a resenha mas difícil é dos contos. Trilogia  de Krzysztof Kieślowski, livros trazem em si desafio extra: para além de ler e apreciar cada uma das histórias isoladamente, é preciso descobrir qual o risco que as une, no bordado. Para mim, leiga em assuntos catedráticos, aceito o desafio sensorial e deixo a literatura tecer-se em mim, de forma apaixonada.

Assim li A B Ácido - estórias e sobre ele retorno repetidas vezes, enquanto esboço este texto.

Rauer, conheci da deliciosa novela Cenas de Amor e Paixão, um reencontro com a linguagem de Nelson Rodrigues, em pitadas envolventes do pseudônimo Suzana Flag. Ainda, do precioso e preciso mininus & brevíssimos (Ed. Pangeia). Neste livro, entretanto, encontro voz diferente; aqui o autor me confidencia segredos e anedotas; narrador sutil e irônico, diverte-se com as próprias travessuras da linguagem que cria, líquido em que dissolve personagens para a ionização dos opostos.

 

Logo de primeira, o espanto: “Um cálice” – diálogo de amor diminutivo, cotidianim, escancarado às portas da completa exasperação:

 

 - O que mesmo minha paixãozinha quer?

-  Que me dê um cálice de cicuta.

 

Segue-se passeio sem pressa pela memória das descobertas: “AISA, o passado em foto antiga e a transformação da relação de madrinha/ afilhado. Com domínio absoluto da técnica do diálogo, forma-se novamente o caldo em que os amantes se ionizam. Assim é a paixão – ou as flores: “Belas, mas morrem logo; com esterco, água e sombra, algumas renascem”.

Atenta à saga de “Tortolindo, personagem familiar ao tempo de mitos malditos, eu não tropeço no fio; o meio é ácido e ocorre a perfeita dissociação entre as propriedades da sua não-existência crítica (e em escrita diáfana) e a memória dos outros, minuciosamente tolerada-acumulada- documentada em anotações, objetos e prole.

Saímos então do credo para adentrar veredas:  a miséria humana (aquela mesma por que antes Tortolindo desapareceu?)... Contos de violência apócrifa, boca da noite, acordes de opereta vexatória; a morte anunciada com afago e carinho a todos (ou um escarro).

Ouve o som? Vê a fúria? Percebe como a condição humana se agiganta a propósito de nada? “Kratos”  é o convite que Rauer nos faz para a mais saborosa de suas estórias (dou graças por não ser a única que discorda do AO90, amém!).

É  então que a epígrafe  JÁ É TEMPO: ABANDONEMOS ESTES LUGARES INTOLERÁVEIS” explode como átomo enriquecido (veja que  Ariadne  não abandona o campo da química).

As histórias de som e de fúria me arrastam em sua perturbadora melancolia. Macbeth, você estava certo! A vida não tem mesmo significado algum. Nossa alma é inorgânica e está morta.

- Cai o pano -




Professor de literatura brasileira na UFMS, atua na graduação e na pós-graduação; fez doutorado em Estudos Literários na UNESP de Araraquara e pós-doutorado em Literatura Comparada na UERJ. Ficcionista, tem nove livros individuais publicados, e mais de uma dezena de obras em que foi organizador ou co-organizador. Participa do Conselho Editorial de diversos periódicos e coordena o Conselho Editorial da Editora Pangeia. Escritor; professor; em travessia.


5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Rauer é perturbador e inquietante. O leitor nunca sai ileso da experiência!

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    1. Observação exata! Assim me senti nas estórias de A B Ácido.

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  3. Mininus & Brevíssimos foi, para mim, um mergulho num aquário com a sensação de estar num oceano, ora com frio, ora com calor, por meio de cada mini conto. Já estou curiosa para conhecer este, com as confissões e anedotas do autor!

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    1. Sua leitura é sensorial como a minha! Fiquei curiosa pelas suas impressões deste livro de contos.

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